domingo, 9 de outubro de 2011

Dos melhores autores Brasileiros e Portugueses-Seleta em Prosa e Verso

O Passarinho Preso

Na gaiola empoleirado,
Um mimoso passarinho
Trinava brandos queixumes 
Com saudade do seu ninho.

"Nasci para ser escravo,
(Carpia o cantor plumoso)
"Não há ninguém deste mundo
Que seja tão desditoso."

Que é do tempo que passava,
Ora desencantando amores,
Ora brincando nos ares,
Ora pousando entre flores?

Mal haja a minha imprudência!
Mal haja o visco traidor!
Um raio,um raio te abrase,
Fraudulento caçador!

Em que pequei? por ventura
Fiz-te à seara algum mal?
Encetei mordi teus frutos,
Como daninho pardal?

Agrestes,incultas plantas 
Produziam meu sustento,
Inútil ao que se prezam 
Do alto dom do entendimento...

Do entendimento!ah malignos!
Vós possuindo a razão,
Tendes de vícios sem conta 
Recheado o coração.

Ah!se a vossa liberdade
Zelosamente guardais,
Como sois usurpadores
 Da liberdade dos mais?

O que em vós é um tesouro,
Nos outros perde o valor?
Destrói-se o justo do oprimido
Pela força do opressor ?


Não tem por base a justiça,
Funda-se em nossa fraqueza 
A lei que a voz nos submete,
Tiranos da natureza !


Em ofensa das deidades ,
Em nosso dano abusais 
Da primazia que tendes 
Entre os outros animais.


Mas , ah triste ! ah malfadado! 
Para que me queixo em vão ?
Que espero, se contra a força 
De nada serve a razão ?


Aqui parou de cansado 
O volátil carpidor :
Eis que vê chegar da caça 
O seu bárbaro senhor 

Trazia encostado ao ombro
O arcabuz fatal e horrendo 
E alguns pássaros  no cinto , 
Uns mortos, outros morrendo .


Das penetrantes feridas 
Ainda o sangue pingava,
E cruento verdugo 
As curtas vestes manchava.
  
O preso , vendo a tragédia ,
Coitadinho ! Estremeceu ;
E de susto e de piedade 
Quase os sentidos perdeu.


Mas apenas do assombro 
Repentino a si tornou;
Com os olhos nos seus finados 
Essas palavras soltou :


Entendi que dos viventes 
Eu era o mais infeliz :
Que outros tem pior destino 
Aquele exemplo me diz.


Da minha sorte já agora 
Queixas não torno a fazer ;
Antes gaiola que um tiro,
Antes penar que morrer .


M.M. B. du Bocage 




















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