sábado, 22 de outubro de 2011

A vida


A vida é o dia de hoje,
A vida é ai que mal soa,
A vida é sombra que foge,
A vida é nuvem que voa;


A vida é sonho tão leve
Que se desfaz como a neve
E como o fumo se esvai:
A vida dura num momento,
Mais leve que o pensamento,
A vida leva-a o vento,
A vida é folha que cai!


A vida é flor na corrente,
A vida é sopro suave,
A vida é estrela cadente,
Voa mais leve que a ave:


Nuvem que o vento nos ares,
Onda que o vento nos mares,
Uma após outra lançou,
A vida – pena caída
Da asa da ave ferida
De vale em vale impelida
A vida o vento levou!



                 João de Deus

Um ignorante diplomado

PERGUNTA:Ouvi dizer que da Europa
                       Voltaste feito doutor?!

RESPOSTA:Parece-te isso impossível?!
                      É verdade,sim senhor!

PERGUNTA:E por que academia?
                      E qual a ciência então?

RESPOSTA:Isso não sei;o diploma
                      É escrito em alemão.

                         Visconde de Araguaia

sábado, 15 de outubro de 2011

Teixeirinha


Cobra Sucuri


Eu às vezes tô me lembrando
De um bom compadre que eu tinha
Valente como um diabo
Pior que galo de rinha
Quando o compadre puxava
Sua faca da bainha
Até a própria polícia
Prometia mas não vinha.
Me contou um morador
Lá do rio Gravataí
Que na costa desse rio
Ninguém mais pescava ali
Porque diz que aparecia
Uma cobra sucuri
E aquela cobra fazia
Todos os pescador fugir.
Eu contei pro meu compadre
Ele garrou pegou a ri
Convidou pra nós ir lá
E eu já me arrependi
Pra ele não embrabecer
Eu fui obrigado a ir
Lá na costa desse rio
Ver a cobra sucuri.
Nós chegamos na barranca
Eu senti um arrepio
Mas eu quando eu vi a cobra
O meu compadre também viu
A água fez uma onda
Na onda a cobra sumiu
E ainda por desaforo
Deu uns quatro ou cinco piu.
Meu compadre vendo a cobra
Já foi largando as tamancas
Deu um jeitinho no corpo
E da sua faca arranca
A cobra veio piando
Veio subindo a barranca
E eu também já fui subindo
Num pé de figueira branca.
Lá de cima eu tava vendo
Como um homem se desdobra
Aí vi que o meu compadre
Tinha destreza de sobra
Ele foi dando um jeitinho
Foi fazendo uma manobra
Em vez da cobra comer ele
Ele é quem comeu a cobra.
Depois da cobra comida
Meu compadre embranqueceu
Olhou pra mim e disse
Por que foi que tu correu?
Ora, ora meu compadre!
Tu bem sabe quem sou eu
Eu tava louco de medo
Da cobra que tu comeu!

Chico Ribeiro gentileza de Filipe Augusto Mello Mattos



Negrinho do Pastoreio



A mão da noite fechara
a porta grande do dia,
era noite e dentro dela
a tempestade rugia...

O vento! Como ventava!
A chuva! Como chovia!
O trovão de boca aberta!
O raio, de quando em quando,
Soltando-se do trovão,
corria dentro da noite,
cortando em riscos de fogo
o seio da escuridão!

Ia fundo a tempestade:
O vento ventando mais,
a chuva chovendo mais.
E o Negrinho, como a ronda,
dentro da noite perdido!...

A tempestade crescendo,
cada vez roncando mais!...

E o Negrinho acocorado
entre as macegas, ouvindo,
ouvindo, vendo e sentindo,
o bate-bate da chuva,
o martelar do trovão.
E o raio...com que violência
cortava o raio a amplidão!...

E o Negrinho ouvindo tudo!
Tudo lhe vem aos ouvidos,
enche-lhe a vista, os sentidos,
menos o passo da ronda,
que lhe confiara o -Sinhô-,
a ronda que a tempestade
de vento e chuva espalhou...

A tempestade crescendo,
cada vez roncando mais!...

Depois, depois ... oh! Senhor!
Depois que tudo acabou,
que a chuva não mais choveu,
que o vento não mais ventou
e o raio se terminou
porque o trovão se calou.

E o Negrinho também!
A não ser pelos milagres,
pelo bem que ele nos presta
quando se perde um tareco,
ninguém mais dentro do mundo
no vão dos dias, das noites,
acompanhado ou sozinho,
conseguiu botar os olhos,
PODE ENCONTRAR O NEGRINHO!

Patativa do Assaré




Dois Quadros


 
Na seca inclemente do nosso Nordeste,
O sol é mais quente e o céu mais azul
E o povo se achando sem pão e sem veste,
Viaja à procura das terra do Sul.

De nuvem no espaço, não há um farrapo,
Se acaba a esperança da gente roceira,
Na mesma lagoa da festa do sapo,
Agita-se o vento levando a poeira.

A grama no campo não nasce, não cresce:
Outrora este campo tão verde e tão rico,
Agora é tão quente que até nos parece
Um forno queimando madeira de angico.

Na copa redonda de algum juazeiro
A aguda cigarra seu canto desata
E a linda araponga que chamam Ferreiro,
Martela o seu ferro por dentro da mata.

O dia desponta mostrando-se ingrato,
Um manto de cinza por cima da serra
E o sol do Nordeste nos mostra o retrato
De um bolo de sangue nascendo da terra.

Porém, quando chove, tudo é riso e festa,
O campo e a floresta prometem fartura,
Escutam-se as notas agudas e graves
Do canto das aves louvando a natura.

Alegre esvoaça e gargalha o jacu,
Apita o nambu e geme a juriti
E a brisa farfalha por entre as verduras,
Beijando os primores do meu Cariri.

De noite notamos as graças eternas
Nas lindas lanternas de mil vagalumes.
Na copa da mata os ramos embalam
E as flores exalam suaves perfumes.

Se o dia desponta, que doce harmonia!
A gente aprecia o mais belo compasso.
Além do balido das mansas ovelhas,
Enxames de abelhas zumbindo no espaço.

E o forte caboclo da sua palhoça,
No rumo da roça, de marcha apressada
Vai cheio de vida sorrindo, contente,
Lançar a semente na terra molhada.

Das mãos deste bravo caboclo roceiro
Fiel, prazenteiro, modesto e feliz,
É que o ouro branco sai para o processo
Fazer o progresso de nosso país.

Patativa do Assaré


O Peixe



 
Tendo por berço o lago cristalino,
Folga o peixe, a nadar todo inocente,
Medo ou receio do porvir não sente,
Pois vive incauto do fatal destino.

Se na ponta de um fio longo e fino
A isca avista, ferra-a insconsciente,
Ficando o pobre peixe de repente,
Preso ao anzol do pescador ladino.

O camponês, também, do nosso Estado,
Ante a campanha eleitoral, coitado!
Daquele peixe tem a mesma sorte.

Antes do pleito, festa, riso e gosto,
Depois do pleito, imposto e mais imposto.
Pobre matuto do sertão do Norte!

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Dos melhores autores Brasileiros e Portugueses-Seleta em Prosa e Verso

A cigarra e a Formiga

Tendo a cigarra em cantigas 
Folgado todo Verão,
Achou-se em penúria extrema
Na tormentosa estação.

Não lhe restava migalha
Que trincasse,a tagarela
Foi valer-se da formiga,
Que morava perto dela.

Rogou-lhe que lhe emprestasse,
Pois tinha riqueza e brio,
Algum grão com que manter-se
Até voltar o acesso estio.

"Amiga(diz a cigarra)
Prometo, a fé d' animal,
Pagar-vos antes de agosto
Os juros e o principal"

A formiga nunca empresta,
Nunca dá, porisso ajunta...
"No verão em que lidavas?"
À pedinte ela pergunta.

Responde a outra "Eu cantava
Noite e dia ,a toda hora"
"Oh!Bravo!(torna a formiga)
Cantavas?pois dança agora!"
B.M  Curvo Semedo


Meus oito anos

Oh! que saudades que tenho 
Da aurora da minha vida, 
Da minha infância querida 
Que os anos não trazem mais! 
Que amor, que sonhos, que flores, 
Naquelas tardes fagueiras 
À sombra das bananeiras, 
Debaixo dos laranjais!
Como são belos os dias 
Do despontar da existência! 
- Respira a alma inocência 
Como perfumes a flor; 
O mar - é lago sereno, 
O céu - um manto azulado, 
O mundo - um sonho dourado, 
A vida - um hino d'amor!
Que aurora, que sol, que vida, 
Que noites de melodia 
Naquela doce alegria, 
Naquele ingênuo folgar! 
O céu bordado d'estrelas, 
A terra de aromas cheia 
As ondas beijando a areia 
E a lua beijando o mar!
Oh! dias da minha infância! 
Oh! meu céu de primavera! 
Que doce a vida não era 
Nessa risonha manhã! 
Em vez das mágoas de agora, 
Eu tinha nessas delícias 
De minha mãe as carícias 
E beijos de minhã irmã!
Livre filho das montanhas, 
Eu ia bem satisfeito, 
Da camisa aberta o peito, 
- Pés descalços, braços nus - 
Correndo pelas campinas 
A roda das cachoeiras, 
Atrás das asas ligeiras 
Das borboletas azuis!
Naqueles tempos ditosos 
Ia colher as pitangas, 
Trepava a tirar as mangas, 
Brincava à beira do mar; 
Rezava às Ave-Marias, 
Achava o céu sempre lindo. 
Adormecia sorrindo 
E despertava a cantar!
Oh! que saudades que tenho 
Da aurora da minha vida, 
Da minha infância querida 
Que os anos não trazem mais! 
- Que amor, que sonhos, que flores, 
Naquelas tardes fagueiras 
A sombra das bananeiras 
Debaixo dos laranjais!

CASIMIRO DE ABREU


Canção do Exílio

"Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.

Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar — sozinho, à noite —
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu’inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá."

Gonçalves Dias

domingo, 9 de outubro de 2011

Dos melhores autores Brasileiros e Portugueses-Seleta em Prosa e Verso

O Passarinho Preso

Na gaiola empoleirado,
Um mimoso passarinho
Trinava brandos queixumes 
Com saudade do seu ninho.

"Nasci para ser escravo,
(Carpia o cantor plumoso)
"Não há ninguém deste mundo
Que seja tão desditoso."

Que é do tempo que passava,
Ora desencantando amores,
Ora brincando nos ares,
Ora pousando entre flores?

Mal haja a minha imprudência!
Mal haja o visco traidor!
Um raio,um raio te abrase,
Fraudulento caçador!

Em que pequei? por ventura
Fiz-te à seara algum mal?
Encetei mordi teus frutos,
Como daninho pardal?

Agrestes,incultas plantas 
Produziam meu sustento,
Inútil ao que se prezam 
Do alto dom do entendimento...

Do entendimento!ah malignos!
Vós possuindo a razão,
Tendes de vícios sem conta 
Recheado o coração.

Ah!se a vossa liberdade
Zelosamente guardais,
Como sois usurpadores
 Da liberdade dos mais?

O que em vós é um tesouro,
Nos outros perde o valor?
Destrói-se o justo do oprimido
Pela força do opressor ?


Não tem por base a justiça,
Funda-se em nossa fraqueza 
A lei que a voz nos submete,
Tiranos da natureza !


Em ofensa das deidades ,
Em nosso dano abusais 
Da primazia que tendes 
Entre os outros animais.


Mas , ah triste ! ah malfadado! 
Para que me queixo em vão ?
Que espero, se contra a força 
De nada serve a razão ?


Aqui parou de cansado 
O volátil carpidor :
Eis que vê chegar da caça 
O seu bárbaro senhor 

Trazia encostado ao ombro
O arcabuz fatal e horrendo 
E alguns pássaros  no cinto , 
Uns mortos, outros morrendo .


Das penetrantes feridas 
Ainda o sangue pingava,
E cruento verdugo 
As curtas vestes manchava.
  
O preso , vendo a tragédia ,
Coitadinho ! Estremeceu ;
E de susto e de piedade 
Quase os sentidos perdeu.


Mas apenas do assombro 
Repentino a si tornou;
Com os olhos nos seus finados 
Essas palavras soltou :


Entendi que dos viventes 
Eu era o mais infeliz :
Que outros tem pior destino 
Aquele exemplo me diz.


Da minha sorte já agora 
Queixas não torno a fazer ;
Antes gaiola que um tiro,
Antes penar que morrer .


M.M. B. du Bocage 




















Dos melhores autores Brasileiros e Portugueses-Seleta em Prosa e Verso


Os dois coleiros

Um dia numa gaiola
Foi um coleiro trancado
E por humano Capricho
Viu-se assim escravizado.


Chorando dizia o triste:
Maldita,maldita sorte!
Em lugar da escravidão
 Antes me desses a morte!"


Um outro coleiro, livre
De ramo em ramo saltando,
Ouvindo queixumes tais,
Ia sonoro cantando:


"Tenho o ar,flores e frutos,
Ameno campo divino, 
Amores e liberdade ,
Eu bendigo o meu destino."


Eis que num dia dois homens
(Que diversa inclinação)
Um abria uma gaiola .
Outro armava um alçapão.


Ligeiro sai da gaiola 
Pobre, escravo passarinho;
No traiçoeiro alçapão
Cai  o livre coleirinho;


Que as sortes foram mudadas
Não é preciso dizer:
Se o que gemia hoje canta,
A quem compete gemer?


Quando a sorte sorri-nos ,
É justo viver contente;
Porem respeitando as dores 
Do que vive descontente.


Assim também, quando a sorte
Não nos quer favorecer,
Chorando nunca devemos 
As esperanças perder.


Nesta vida transitória
Lembrar este dito cabe:
"Não há bem que sempre dure
Nem mal que não se acabe..."
                                             Anastácio Luiz de Bonsucesso




Poema de cordel

Dona Chica

Esse fato se passou
Com dona Chica Ferreira
Que mora no pé da serra
No sítio Tamarineira
E nunca vem na cidade
Pois sua grande vaidade
É gostar de ser roceira
Mas ficando adoentada
Resolveu se receitar
Estava mesmo enfadada
Já gemia sem parar
Pegou o misto da feira
Nele seguiu bem ligeira
A fim de se consultar
Me conte,disse o doutor:
Qual é a sua mazela
Dona Chica assim falou:
-É um ardo na guela
Uma imbruição no bucho
O istambo dando repuxo
E um bolo nas custela
-Ainda onteonte eu comi
Um pirãozinho de costela
Baião de dois com piqui
E uma farofa amarela
Um taquim de rapadura

Só se foi essa mistura
Que causou mazela
-Descobri o seu problema
Não precisa assombração
Tá resolvido o dilema
É uma forte indigestão
Entenda por caridade
Você não tem mais idade
Pra comer osso e pirão
Os remédios escolhidos
Receitou com precisão:
-Tome esses comprimidos
Logo após a refeição
Você vai ficar curada
E seguir com atenção
Enfadada, mas sem tédio
Chegou em casa,almoçou
E pegando o tal remédio
Dois comprimidos tomou
Mas o bicho sendo enorme
De tamanho desconforme
Na guela não passou


Danou-se a ferver na boca
Dona Chica a sufocar
Esperneava feito louca

Não podia nem falar
Pelo nariz espumava
A garganta se fechava
Só faltava desmaiar
Tão logo recuperou-se
Do triste acontecimento
Dona Chica levantou-se
E ali naquele momento
Gritou alto,esbravejou
Fez até um juramento
E jurou bem na verdade
Depois que passou o mal
-Nunca mais vou na cidade
Te desconjuro animal
O seu remédio moderno
Vá seu doutor pro inferno
Com seu tal Sonrisal!